Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

E como ser brasileira em Tunis…

por Cindy


Essa história das meninas sauditas não me sai da cabeça. Já senti na pele algumas vezes o que é ter minha liberdade cerceada pelo simples fato de ser mulher. Se eu morasse naquela sociedade certamente seria trágico. Como turista chega a ser quase cômico, uma história para contar pros amigos. Assim foi quando eu quis fazer algo impensável, abominável, execrável e reprimível em Tunis, capital da Tunísia. Eu quis, vejam só, tomar uma cervejinha....

Imbuída deste espírito contraventor, desci para o lobby do Majestic Hotel, centenário muquifo estilo elegance avec decadence da Avenue de Paris, uma charmosa rua que corta a Habib Bourguiba. Elegance por fora, um edifício em estilo rococó francês. O resto era só decadence. E era o máximo que eu poderia ter em Túnis por 50 doletas a diária.

Ao fazer o check in, vi que havia um bar no hotel, atrás de uma portinhola ao lado da recepção. Deixei minhas coisas no quarto e fui para lá. Não consegui nem tocar na maçaneta pois o funcionário da recepção praticamente pulou na minha frente para me impedir. “Não é recomendável que você entre aqui. Não pega bem para uma mulher”, disse ele. “Mas eu posso te servir no salão do café da manhã”, completou me indicando uma sala completamente vazia e separada da recepção por uma cortina.

Inconformada, saí decidida a encontrar um bar para turistas. Como por milagre, alguns quarteirões adiante, dei de cara com a placa: “Restorant Touristique”. Era a senha. Entrei, toda animada, e quase caí para trás. O restaurante estava lotado, mas não parecia ser algo tão touristique assim. Das cerca de cem pessoas que estavam lá, só havia três mulheres – devidamente acompanhadas. Pedir uma cerveja era um ato de coragem. Pedi.

O garçom agiu naturalmente, mas os meus colegas de boteco não. Era só eu cruzar os olhos com algum deles que recebia, na melhor das hipóteses, uma piscadela. Tirei da bolsa meu diário salvador e passei a escrever tentando só olhar para cima com o rabo dos olhos. Tudo bem, eu não deveria estar lá, mas a curiosidade exigiu que eu ao menos acabasse minha cervejinha. Não aconteceu. Antes disso, o garçom veio com um “presente” mandado pelo bigodudo da mesa ao lado. Era uma fatia de laranja com meia cereja no centro. Aquilo era demais para mim. Vai saber o significado de um troço desses. Já ia me levantando, quando me ocorreu de perguntar para o garçom se era falta de educação deixar o “mimo”. Era. Já na rua, joguei a fatia de laranja no lixo e corri para o Majestic e seu bar a portas fechadas. Ainda bem.

Mas não saí antes de tirar a foto que vocês viram no alto!

* Antes que eu me esqueça: essa e outras histórias estão no livro A Volta ao Mundo em 101 Dicas, que sai em Março pela Ediouro!

7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

ah cindy... o bigodão não era de se jogar fora. e ele provou gostar de mulheres independentes. depois fica reclamando...

18 de Dezembro de 2007 21:10  
Anonymous Bru disse...

Concordo que você devia ter dado uma chance para o bigodón. E as frutas são simpáticas, vai! Falando sério, eu não teria chegado até o balcão. Tremenda coragem...

18 de Dezembro de 2007 21:15  
Anonymous fabinho disse...

olha... correr certos riscos por uma cerveja. correr riscos. esse gene é dominante na cindy. acho que isso explica algo!

18 de Dezembro de 2007 21:32  
Anonymous Anônimo disse...

Cindy,
viajar é experimentar outras culturas. Preconceituosa vc. Nem provou a cerejinha.

19 de Dezembro de 2007 12:38  
Blogger Cindy Wilk e Eliza Capai disse...

Provei, sim. Nao consigo lembrar a marca, mas provei! Nao consegui foi terminar. Se voces vissem como olhavam para mim... Reparem que a foto esta meio torta pois foi tirada clandestinamente, fiquei com medo que me atacassem la. E, ca entre nos, eu nao realmente nao deveria ter sentado ali. Apesar de a Tunisia ser relativamente liberal -- o presidente Habib Bourguiba, que governou o pais de 56 a 86, deu direitos a mulheres, reprimiu o fundamentalismo ilamico). Mas 98% da populacao eh muculmana. Pela lei islamica, alcool nao eh permitido. Portanto, eu estava num bar onde as pessoa vao fazer algo meio mal visto pela sociedade -- e talvez isso explique por que a placa dizia "Restaurant Touristique", justamente para obter licenca para vender alcool. Ou seja, pensando bem agora: que diabos eu fazia ali???
beijos a todos,
Cindy

19 de Dezembro de 2007 13:18  
Anonymous Eliane disse...

Cruzes!! Esse bar aí é a própria "festa estranha com gente esquisita"!

19 de Dezembro de 2007 15:21  
Blogger celialice disse...

Bom texto, Cindy, bem como a sugestiva foto, com certeza vou ler as "101 dicas"!

15 de Janeiro de 2008 21:39  

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