Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Carro de macho



por Cindy

Estou nos Estados Unidos passando o fim do ano. Eis que numa estrada nos confins da Carolina do Norte encontro isso aí. Um legítimo exemplar de “carro de macho”. Tinha que postar. Mas, vem cá, você acha que é preciso ter colhões para usar esse discreto penduricalho na traseira do carro? Ou é justamente a falta dele que faz alguém querer afirmar tanto assim sua masculinidade? Juro que quis perguntar, mas nem preciso dizer que o cara estava a mil por hora. Só deu tempo de tirar essa foto...

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

E como ser brasileira em Tunis…

por Cindy


Essa história das meninas sauditas não me sai da cabeça. Já senti na pele algumas vezes o que é ter minha liberdade cerceada pelo simples fato de ser mulher. Se eu morasse naquela sociedade certamente seria trágico. Como turista chega a ser quase cômico, uma história para contar pros amigos. Assim foi quando eu quis fazer algo impensável, abominável, execrável e reprimível em Tunis, capital da Tunísia. Eu quis, vejam só, tomar uma cervejinha....

Imbuída deste espírito contraventor, desci para o lobby do Majestic Hotel, centenário muquifo estilo elegance avec decadence da Avenue de Paris, uma charmosa rua que corta a Habib Bourguiba. Elegance por fora, um edifício em estilo rococó francês. O resto era só decadence. E era o máximo que eu poderia ter em Túnis por 50 doletas a diária.

Ao fazer o check in, vi que havia um bar no hotel, atrás de uma portinhola ao lado da recepção. Deixei minhas coisas no quarto e fui para lá. Não consegui nem tocar na maçaneta pois o funcionário da recepção praticamente pulou na minha frente para me impedir. “Não é recomendável que você entre aqui. Não pega bem para uma mulher”, disse ele. “Mas eu posso te servir no salão do café da manhã”, completou me indicando uma sala completamente vazia e separada da recepção por uma cortina.

Inconformada, saí decidida a encontrar um bar para turistas. Como por milagre, alguns quarteirões adiante, dei de cara com a placa: “Restorant Touristique”. Era a senha. Entrei, toda animada, e quase caí para trás. O restaurante estava lotado, mas não parecia ser algo tão touristique assim. Das cerca de cem pessoas que estavam lá, só havia três mulheres – devidamente acompanhadas. Pedir uma cerveja era um ato de coragem. Pedi.

O garçom agiu naturalmente, mas os meus colegas de boteco não. Era só eu cruzar os olhos com algum deles que recebia, na melhor das hipóteses, uma piscadela. Tirei da bolsa meu diário salvador e passei a escrever tentando só olhar para cima com o rabo dos olhos. Tudo bem, eu não deveria estar lá, mas a curiosidade exigiu que eu ao menos acabasse minha cervejinha. Não aconteceu. Antes disso, o garçom veio com um “presente” mandado pelo bigodudo da mesa ao lado. Era uma fatia de laranja com meia cereja no centro. Aquilo era demais para mim. Vai saber o significado de um troço desses. Já ia me levantando, quando me ocorreu de perguntar para o garçom se era falta de educação deixar o “mimo”. Era. Já na rua, joguei a fatia de laranja no lixo e corri para o Majestic e seu bar a portas fechadas. Ainda bem.

Mas não saí antes de tirar a foto que vocês viram no alto!

* Antes que eu me esqueça: essa e outras histórias estão no livro A Volta ao Mundo em 101 Dicas, que sai em Março pela Ediouro!

Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Como ser solteira em Riad

por Cindy

Algumas táticas infalíveis para conquistar um homem:

“Ande devagar, fale devagar, sorria muito pouco, dance muito pouco, seja ajuizada e sábia, pense sempre antes de agir, meça as palavras com cuidado antes de falar e não se comporte de modo infantil.”

“Não seja fácil. Rejeição: eis o segredo para incendiar a paixão de um homem.”

Ok, esqueci de dizer que essa estas estratégias são infalíveis na Arábia Saudita. Ou pelo menos são os conselhos que as mães e tias sauditas dão a suas jovens mocinhas casadoiras (jovens quer dizer jovens mesmo, uma menina de 20 anos por lá já começa a ficar para titia). E ficar para titia numa sociedade que cunhou o provérbio “Antes sob a sombra de um homem do que sob a sombra de uma parede” não deve ser a coisa mais agradável do mundo.

O que me deixou surpresa, no entanto, não foi o teor dos conselhos. São óbvios e esperados por aquelas bandas do Golfo Pérsico. Mas sim a carga crítica com que eles e outros códigos tradicionais de conduta de lá aparecem em Vida Dupla (Girls of Riyadh), da Editora Nova Fronteira. A autora, Rajaa Alsanea (foto), uma jovem saudita de 25 anos, linda, estudante de odontologia em Chicago, descreve o cotidiano de quatro amigas ricaças e “moderninhas”. Qualquer semelhança com Sex and the City não é mera coincidência. As aventuras de Carrie Bradshaw e as amigas circulam em Riad, em cópias tão clandestinas quanto o livro de Rajaa, imediatamente proibido no país.

Num lugar como a Arábia Saudita não é necessariamente difícil (para os nossos padrões) ser uma mulher contraventora. Passear no shopping com seu grupinho de amigas, todas devidamente paramentadas com suas abbayas (uma espécie de burca vestida freqüentemente por cima de peças Armani, Cavalli ou Dolce & Gabanna), pode. Cruzar com um grupinho de garotos e aceitar sorrateiramente de um deles uma caneta com um número de telefone enrolado, numa operação a la James Bond, não pode. Ligar para o tal número, então, vira caso para a Polícia Religiosa. Outros atentados ao pudor: assistir a filmes escandalosos como, por exemplo, as Patricinhas de Beverly Hills, contrabandeados do Líbano; tomar um café com um cara que não seja seu parente; comemorar a despedida de solteira de uma amiga tomando champanhe dentro de casa; freqüentar a casa de uma mulher mal-falada e abandonada pelo marido por ter cometido o erro de ter um filho gay; transar com o marido depois de assinar os papéis do casamento (ou melhor, carimbar o dedão no contrato, já que mesmo uma médica é proibida de assiná-lo), mas antes da festa e lua-de-mel.

As personagens de Rajaa fazem tudo isso. E, quer saber, se elas quisessem ser mais eficientes na tarefa de “fisgar um bom marido”, melhor mesmo que tivessem ouvido o que as mães e tias tinham a dizer. A certa altura, uma delas reflete: “Quando o assunto é a busca de uma noiva, moças ingênuas costumam exercer uma atração maior do que as que possuem um nível avançado de conhecimento e uma percepção mais sofisticada do mundo”. E a outra: “Será que os homens sentem sua autoridade ameaçada ao perceberem que uma mulher começa a se tornar efetivamente independente em alguma área?”

Estou aqui tentando me lembrar quantas vezes ouvi amigas minhas bacanas, descoladas, modernas, incríveis reclamarem que a explicação mais plausível para estarem sozinhas é que são independentes demais. Será que somos mais parecidas com as garotas de Riad do que pensamos? Ou os homens é que são tão iguais?

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