Men for sale

Por Cindy Wilk
Sempre que ouvimos a expressão turismo sexual vêm em mente aquelas histórias horríveis de prostituição de menores no Norte/Nordeste, os vôos charter que fazem rotas Lisboa-Fortaleza, Frankfurt-Natal, cenas do Posto 5 de Copacabana... Eu vejo (e me revolto com) tudo isso, mas também me lembro nitidamente daquela inglesa.
Mary, como vamos chamá-la aqui, tem por volta de 40 anos. Não exibe dentes perfeitos (o que não destoa muito de outros sorrisos ingleses classe média), tem um sotaque que me soou off London e certamente não upper class. Ela traja um vestidinho cor-de-rosa pálido, combinando com um corte de cabelo à la Doris Day, como se o ano 2005 não quisesse dizer muito. Uma mulher romântica, atestavam os saltinhos Anabela também cor-de-rosa, um tom acima do vestido.
Mary sorria para Habib. Ele, sim, tinha bons dentes. Pele morena, boa estatura. Calça jeans justa e camiseta preta dobradinha na manga, que ornavam com o canastrão cabelo bem escuro penteado para trás e reluzente de gel. Os dois olhavam-se nos olhos, entre goles finais do chá de maçã, até que Habib leva um tapão nas costas. Era Mohamed, que acabara de chegar com Sara, também inglesa, um pouco mais velha que Mary, mais loira e ainda menos bonita. Ela permaneceu sentadinha na mesa simples do restaurante enquanto os dois dialogavam animadamente em árabe.
Minutos depois de Mohamed voltar para sua mesa, a conta do almoço chega para Habib. Mary, delicadamente, sorri e tira de sua bolsa cor-de-rosa (só neste momento reparei que era exatamente do tom do sapato) uma carteira, adivinhe, cor-de-rosa, e a desliza para as mãos de Habib. Ele tira alguns dinares, fecha e devolve para sua dona. Os dois sorriem. Ele fica de pé, se aproxima e dá a mão para ela levantar. O casal sai.
Esta cena aconteceu em Hamamet, cidade costeira da Tunísia, cerca de uma hora da capital Tunis. Mas poderia ter acontecido na Turquia, onde conversei longamente com meu amigo Necdet sobre um assunto que pouca gente fala: turismo sexual praticado por mulheres.
Necdet é turco, mora e trabalha como garçom em Istambul, mas passa todas as temporadas de verão em Marmaris, praia badalada do litoral do país. Já fez e tem vários amigos que fazem um trabalho que ele nem considera trabalho: saem com garotas estrangeiras em troca de favores. Não muito. Pode ser um presentinho, os drinques da balada, a conta do restaurante. Pode não ser a garota dos sonhos desses rapazes, mas, segundo ele, eles fariam o que fazem mesmo sem esses mimos. “Aqui na Turquia não dá para namorar uma turca. Se o irmão dela descobre, eu estou morto. Essas estrangeiras vem aqui para isso”, diz.
Não precisamos ir até a Tunísia ou a Turquia para encontrar mulheres que viajam para transar. Nem à Jamaica ou ao Haiti (alguém viu o filme Direção ao Sul, de Laurent Cantet?).
Uma vez me hospedei num albergue no Pelourinho, em Salvador, e encontrei algumas estrangeiras que estavam ali quase que exclusivamente para isso e estavam dispostas a pagar, mesmo que fosse só a conta do restaurante. Mas também queriam receber um pouco mais que o sexo pelo sexo. Não cheguei a conversar com a romântica Mary, mas imagino que ela também quisesse carinho, atenção, uma aventurinha romântica a preços módicos (ainda mais para quem ganha em libras) e nenhum ônus emocional. O que, veja bem, é muito diferente do caso de uma turma de amigas que vai passar a semana em Buenos Aires só para fazer a festa com os hermanos gatinhos.
A fronteira entre uma relação desinteressada e turismo sexual parece ser mais tênue quando praticada por mulheres, mas que ela existe, existe.
* Os homens na prateleira do supermercado fazem parte de uma arte-instalação do fotógrafo italiano Gianfranco Angelico Benvenuto
Sempre que ouvimos a expressão turismo sexual vêm em mente aquelas histórias horríveis de prostituição de menores no Norte/Nordeste, os vôos charter que fazem rotas Lisboa-Fortaleza, Frankfurt-Natal, cenas do Posto 5 de Copacabana... Eu vejo (e me revolto com) tudo isso, mas também me lembro nitidamente daquela inglesa.
Mary, como vamos chamá-la aqui, tem por volta de 40 anos. Não exibe dentes perfeitos (o que não destoa muito de outros sorrisos ingleses classe média), tem um sotaque que me soou off London e certamente não upper class. Ela traja um vestidinho cor-de-rosa pálido, combinando com um corte de cabelo à la Doris Day, como se o ano 2005 não quisesse dizer muito. Uma mulher romântica, atestavam os saltinhos Anabela também cor-de-rosa, um tom acima do vestido.
Mary sorria para Habib. Ele, sim, tinha bons dentes. Pele morena, boa estatura. Calça jeans justa e camiseta preta dobradinha na manga, que ornavam com o canastrão cabelo bem escuro penteado para trás e reluzente de gel. Os dois olhavam-se nos olhos, entre goles finais do chá de maçã, até que Habib leva um tapão nas costas. Era Mohamed, que acabara de chegar com Sara, também inglesa, um pouco mais velha que Mary, mais loira e ainda menos bonita. Ela permaneceu sentadinha na mesa simples do restaurante enquanto os dois dialogavam animadamente em árabe.
Minutos depois de Mohamed voltar para sua mesa, a conta do almoço chega para Habib. Mary, delicadamente, sorri e tira de sua bolsa cor-de-rosa (só neste momento reparei que era exatamente do tom do sapato) uma carteira, adivinhe, cor-de-rosa, e a desliza para as mãos de Habib. Ele tira alguns dinares, fecha e devolve para sua dona. Os dois sorriem. Ele fica de pé, se aproxima e dá a mão para ela levantar. O casal sai.
Esta cena aconteceu em Hamamet, cidade costeira da Tunísia, cerca de uma hora da capital Tunis. Mas poderia ter acontecido na Turquia, onde conversei longamente com meu amigo Necdet sobre um assunto que pouca gente fala: turismo sexual praticado por mulheres.
Necdet é turco, mora e trabalha como garçom em Istambul, mas passa todas as temporadas de verão em Marmaris, praia badalada do litoral do país. Já fez e tem vários amigos que fazem um trabalho que ele nem considera trabalho: saem com garotas estrangeiras em troca de favores. Não muito. Pode ser um presentinho, os drinques da balada, a conta do restaurante. Pode não ser a garota dos sonhos desses rapazes, mas, segundo ele, eles fariam o que fazem mesmo sem esses mimos. “Aqui na Turquia não dá para namorar uma turca. Se o irmão dela descobre, eu estou morto. Essas estrangeiras vem aqui para isso”, diz.
Não precisamos ir até a Tunísia ou a Turquia para encontrar mulheres que viajam para transar. Nem à Jamaica ou ao Haiti (alguém viu o filme Direção ao Sul, de Laurent Cantet?).
Uma vez me hospedei num albergue no Pelourinho, em Salvador, e encontrei algumas estrangeiras que estavam ali quase que exclusivamente para isso e estavam dispostas a pagar, mesmo que fosse só a conta do restaurante. Mas também queriam receber um pouco mais que o sexo pelo sexo. Não cheguei a conversar com a romântica Mary, mas imagino que ela também quisesse carinho, atenção, uma aventurinha romântica a preços módicos (ainda mais para quem ganha em libras) e nenhum ônus emocional. O que, veja bem, é muito diferente do caso de uma turma de amigas que vai passar a semana em Buenos Aires só para fazer a festa com os hermanos gatinhos.
A fronteira entre uma relação desinteressada e turismo sexual parece ser mais tênue quando praticada por mulheres, mas que ela existe, existe.
* Os homens na prateleira do supermercado fazem parte de uma arte-instalação do fotógrafo italiano Gianfranco Angelico Benvenuto




4 Comentários:
HUHUHUHUHUHUHUH
Ei, a gente vê isso aqui mesmo, sem precisar ir pra Turquia, pra Tunísia ou pro Haiti (o filme do Laurent Cantet é impressionante mesmo, com todas aquelas coroas gringas taradas pelos negões sarados). Os nativos de Fernando de Noronha têm seu ranking próprio de quem come, de graça, mais turistinhas solteiras. Quando eu fui, veja só, as benfeitoras que mais caiam nos braços da galera eram as paulistas...
A colunista faz turismo sexual?
;)
Olá, Cindy!
Muito interessante a perspectiva que vc apresenta. Os exemplos que ilustram seu texto, nos forçam a pensar o quanto às identidades, para começarem a ser compreendidas, exigem a fluidez do contexto político. Ser “homem” e ser “mulher”, não remete a uma essência, seja ela biológica (das “diferenças objetivas”), ou mesmo certos aspectos culturais incorporados e estáticos... Quem seriam os “homens” e a “mulheres” das relações aí descritas? Os papéis de “provedor(a)”, “dependente”, “poderoso(a)”, “bonita(o)”, “o (a) apresentável” aos olhares alheios, correspondem a quem? “Quem” e “o que” fora exibido como uma conquista, um troféu...? A origem étnica dos rapazes, nesse contexto, faz alguma diferença? Legal foi que os papéis e os atores sofreram, no mínimo, um deslocamento. Isso nos permite pensar que o dinheiro pode ser mais fálico do que o falo, mesmo saindo de uma carteira cor - de- rosa... Certas leituras vão dizer que o homem, como em toda história da civilização, saí ganhando: a trepada, a conta do restaurante (ou cachê pela noite, ou tarde de chá com a londrina balzaquiana. Imaginei a idade da moça). É um texto bastante didático (e provocativo), ideal pra ser utilizado em aulas sobre o tema. É preciso pensar as relações de poder e não as essências do que é “homem” e “mulher”, simplesmente. Como diria os teóricos da lingüística, o vínculo social é discursivo e, discurso é a própria materialidade. Você direciona suas práticas a partir dos seus referenciais, e “o outro” faz o mesmo, é aí que entram as relações de poder. O poder de dizer o quais são as “verdades”... Ser “homem” e “mulher” exige, mais do que nunca, a identificação do contexto em disputa para ser definido. Por isso fiquei curiosa em saber o que nos diria a “Mary”.
Um abraço.
Beijo, Eliza.
Camilla Lobino
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