Terça-feira, 22 de Abril de 2008

Como ir de Miami a São Paulo em 24 horas

por Cindy Wilk

Sou uma pessoa de sorte. Em mais de doze anos como jornalista de viagem nunca tive sequer um vôo cancelado. O mais perto que cheguei disso foi um overbooking que me deixou 600 euros mais rica e um co-piloto da American Airlines que passou mal (antes do vôo, veja bem) - que me rendeu um assento na executiva da United Airlines, para onde fui realocada. No dia 30 de março último esperava na sala de embarque de Cumbica para voar novamente pela American, desta vez para Miami. O co-piloto novamente passou mal (segundo eles) e novamente eles não tinham ninguém na manga. Mas nada de executiva da United. Acabei minha noite no Caesar Park de Guarulhos, um voucher de jantarna mão, 3 minutos de ligação. Meu vôo noturno virou um desconfortável vôo diurno, meus compromissos em Miami foram para o saco e tive que engolir um “desculpe pelo inconveniente”. Somente uma semana depois, na volta de Miami para São Paulo, no dia 7 de abril, fui descobrir que o vôo de ida foi excelente. Acompanhe:

21h30, Miami Airport - Faço o check in para o vôo AA 995, com saída previstapara 23h30.

23hs - A saída foi remarcada para as 0h30. As lojas e lanchonetes da área de embarque fecham, o frio do ar-condicionado é tanto que as pessoas se cobrem até com calças sobressalentes.

23h15 - Dois rapazes tiram seus violões.

0h15 - Todos embarcam. O avião está praticamente lotado.

0h30 - O comandante anuncia que há um probleminha no ar-condicionado e que os técnicos estão arrumando.

1h30 - Tudo indica que os técnicos continuam trabalhando.

2hs - Mais pessoas embarcam. Lembro-me imediatamente dos ônibus indianos que só saem quando preenchem 5 vezes a lotação para a qual foram projetados.

2h30 - Finalmente, o piloto avisa que o vôo foi transferido para o dia seguinte. Nos deram duas opções: dormir no aeroporto ou ir para um hotel. Todos voltam para a sala de embarque e tomam seus lugares nas quilométricas filas dos vouchers para o hotel.

3hs - Fui uma das primeiras a sair (soube no dia seguinte que muitos ficaram naquelas filas até 4 da manhã) e ter o desprazer de topar com a funcionáriada Super Shuttle, empresa responsável pelo transporte da carga - ops, dos passageiros - para o hotel. Aos berros, ela desmantela a fila formada por nós e cria um tumulto.

3h10 - O motorista da Super Shuttle é tão pouco afável quanto ela. Novamente aos berros explica que só nos levaria se cada um apresentasse um voucher, sendo que vários deles valiam para duas pessoas. Resultado: fomos forçados a entregar o voucher que nos permitiria voltar ao aeroporto dali algumas horas. E mesmo com dezenas de hotéis vizinhos ao aeroporto, nos mandam para um a 20 minutos de lá.

3h30 - Chegamos. Tento pela última vez argumentar que o motorista pegou mais vouchers do que deveria. Ele me acusa de roubar um dos papéis. Faço ele contar e, bingo, fica provado que não sou uma ladra. Não me contenho e mando o cara, bem, passear.

3h35 - Fila pro check in do hotel Mikosukee, nome bem apropriado para asituação. É um hotel cassino, administrado por índios mikosukee. O cheiro decigarro do lobby nos acompanha até o quarto. O carpete puído exibe a marcado ferro de passar roupa que algum descuidado derrubou.

3h45 - Com a verba de 10 dólares para o jantar, como um sanduíche de pastrame na cantina do cassino. Me arrependo na seqüência. Vou dormir.

9hs - Tento fazer um café da manhã decente caber na verba de 5 dólares.

9h30 - Um grupo desesperado se aglomera em frente à van da Super Shuttle. Não há carros suficientes nem para quem tem o voucher. Eu que não tenho ligo para a companhia e explico que o motorista de ontem o pegou por engano. A atendente diz que eu tenho que pagar. Tento argumentar. Ela desliga na minha cara.

9h40 - Racho um táxi com um casal de americanos. São 50 dólares para voltar ao aeroporto.

11h40 - Somos embarcados aos berros. “Quero ver uma fila, senão ninguém embarca”, berrava o comissário. “Quero ver organização!” Não seria muito tarde para pedir isso?

11h45 - Uma grávida pede para o comissário ajudá-la a colocar a bagagem no compartimento superior. “Por que você quer ajuda?”, rebate ele.

12h05 - Finalmente o avião decola.

19hs - O comissário vem trazer um café que meus colegas de fila pediram. Peço também. “Se você queria um café deveria ter pedido antes”, responde o comissário.

20hs - Chega o jantar. É uma pizza tamanho gigante compactada em 15centímetros de diâmetro. A aeromoça arremessa a pizza-chumbo diretamente no meu colo (com o molho de tomate e queijo virados para baixo).

21h30 - Finalmente aterrissamos. A grávida pede ajuda para outro comissário para tirar suas coisas. “Não estou trabalhando”, diz ele. Outro passageiro a ajuda.

22hs - Cerca de 50 passageiros estão na fila da reclamação de bagagem.“Mandaremos as malas para a casa de vocês em até 48 horas”, jura o staff da American Airlines.

22h10 - Saio do aeroporto com um dia de trabalho perdido, mal dormida, com dores nas costas, faminta. Mas com as malas na mão. E eu não disse que tenho sorte?