A de Agadez
Por Cindy Wilk


A vida de turista em Agadez não é fácil. Nosso grupo era pequeno: oito pessoas. Todas devidamente perseguidas por uma multidão através dos estreitos caminhos do mercado. Éramos atrações na antiga capital dos tuaregues, ainda linda, porém pobre, num dos países mais miseráveis do mundo, o Níger. Estávamos na porta de entrada do mais fascinante deserto do mundo: o Saara. “Cadeau, cadeau!”, berravam as crianças atrás de presentes, uma caneta Bic, uma bala. Os adultos tentavam nos vender de sandálias de couro de camelo a gri-gris, amuletos animistas usados no país islâmico. Rej estava na multidão. Filho de mãe wodaabe e de pai tuareg, ele também vendia badulaques. Mas queria, sinceramente, saber quem eu era. Fiz o primeiro amigo da vida a andar de túnica azul e facão a tiracolo.
No dia seguinte, a Land Rover estacionou em frente ao hotel. Fachada ocre, como tudo por ali. Entre o grupo de curiosos que sempre orbitava ao nosso redor, reconheço Rej. Ele tirou do pescoço um cordão negro com um búzio amarrado. Búzio de quando o Saara era mar. “É para te dar sorte no bush.” Bush, o campo. Forma aparentemente imprecisa de chamar o deserto sem fim que seria minha casa pelas duas semanas seguintes. Deserto que às vezes era de dunas. Outras, repleto de rochas de formatos loucos. Por horas, era chão batido quilômetros a fio, desconcertante sensação de não mais ter referências. Mas que sempre era estrada, uma espécie de highway pontuada por poços, agraciada por oásis e povoada por gente que oferece o que não tem. Caravanas de camelos levavam sal e sonhos.
Banho só de bacia, banheiro era uma pá. De noite, o céu se aproxima, aconchega. O céu que nos protege com suas estrelas cadentes e satélites artificiais. Entendi perfeitamente o título que Paul Bowles deu ao seu romance. The Sheltering Sky. Quem precisa de abrigo quando tem sobre si todo o firmamento? Última barraca desmontada, cadê o búzio no pescoço? Procuro, mas nada. No dia seguinte dormiríamos na cidade. O lugar dele era o bush.
De volta a Agadez. A Land Rover estaciona na frente do hotel, que como tudo ali é de barro com arabescos finamente esculpidos. Só para lembra que nestas terras sem chuva o ar é tão seco a ponto de fazer a vida bem mais perene que o barro. Novamente à mercê daquela ruidosa multidão, empurrando um punhado de coisas de couro de camelo bem cerzido, mas mal-curtido. Rej não estava lá.
“Madam, madam”, um rapaz ejeta-se da multidão bem na minha frente. “Sou Adam, irmão de Rej. Ele não pode vir, mas pediu para te chamar”, disse ele num inglês bem melhor do que o do suposto irmão. Adam não se parecia em nada com Rej. Estava vestido de calça jeans e camiseta e usava um boné na cabeça. “Somos irmãos do mesmo pai”, adiantou-se em explicar. “Minha mãe é haussá.” Então ele era meio tuaregue e meio haussá, o que explicava suas feições mais parecidas com a gente do sul do país, que faz fronteira ali com a Nigéria. Mas nada explicava aquele boné e aquele inglês razoável. Ou ainda o fato de o garoto se auto nomear Adam. Ele tinha uma quedinha pelo “Império Americano”.
Minha mãe diria para eu não aceitar aquele convite, mas fui. Segui Adam pelas ruelas de Agadez até que paramos na loja mais moderna que podia existir por ali. Vendia pranchas de surfe para areia. Na língua tuaregue, erg significa, literalmente, mar de dunas. Mas eu não vi nenhum tuaregue nem ninguém pegando onda.
Esperamos alguns minutos na loja até que Rej apareceu, acompanhado de um amigo, o Mohamed, e com um saquinho plástico na mão. Fomos andando os quatro mais alguns quarteirões até parar na entrada de um páteo. No fundo estava o quarto de Rej, que chamava menos atenção pelo tamanho – uns dois por dois – do que pelo despojamento. Não tinha móveis, nada. Um colchão bem fino no chão era a cama. Ao invés do armário, uma prateleira de alvenaria revelava seus pertences. Uma muda de roupas, uma caixa e material para fazer bijuterias. Só.
Ao entrarmos Rej e Adam apresentaram a irmã, Zara, que passou todo o tempo calada e, por mais que eu tentasse puxar assunto, ela ria timidamente e permanecia olhando para o fio onde encaixava, uma a uma, pequenas miçangas que formariam a pulseira que me daria de presente. Zara parecia bastante com Rej e também pintava os olhos de kajal negro e fazia pequenas bolinhas no rosto, à moda dos wodaabes. Os homens desta etnia africana costumam se maquiar mais do que as mulheres. Maquiagem e delicadeza são símbolos de beleza masculina.
Rej esquentou a água para fazer o chá e, em seguida, abriu com orgulho o saquinho que carregava na mão. Era um pacote de biscoito. “Você vem para o Gereewol?”, perguntou, meio com gestos. Adam traduziu. Gereewol é a maior festa wodaabe, quando os homens maquiadíssimos dançam, cantam e fazem curiosas caretas. As mulheres, vestidas modestamente e sem maquiagem, assistem à exibição e podem escolher o homem que considerarem mais bonito. Às vezes dá em casamento, noutras é apenas one night standing mesmo. Moderno, polígamo, simples assim. Quando vi, Rej estava dando uma palhinha da dança do Gereewol. Todos riram, até Zara.
Depois, meu amigo fez um ar solene e disse que queria mostrar uma coisa. Alcançou a prateleira de alvenaria e pegou algo de dentro da caixa. Eram cartas. De gente dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Austrália. Cartas de gente que passou por ali, como eu. O correio faz aquele povo se sentir parte do mundo, num país que quase não existe. Em todas as vilas pelas quais passei, pessoas com quem trocava cinco palavras escreviam o endereço num pedaço de papel e pediam para que eu mandasse notícias. Como Rej não tinha endereço fixo – parte do ano passava no bush ajudando o pai a cuidar das cabras – passou as coordenadas da biblioteca da cidade e disse que eles guardavam as cartas para ele. O tempo passou, São Paulo me engoliu novamente, Agadez virou memória enterrada com tantas outras. Nunca escrevi para Rej.
No dia seguinte, a Land Rover estacionou em frente ao hotel. Fachada ocre, como tudo por ali. Entre o grupo de curiosos que sempre orbitava ao nosso redor, reconheço Rej. Ele tirou do pescoço um cordão negro com um búzio amarrado. Búzio de quando o Saara era mar. “É para te dar sorte no bush.” Bush, o campo. Forma aparentemente imprecisa de chamar o deserto sem fim que seria minha casa pelas duas semanas seguintes. Deserto que às vezes era de dunas. Outras, repleto de rochas de formatos loucos. Por horas, era chão batido quilômetros a fio, desconcertante sensação de não mais ter referências. Mas que sempre era estrada, uma espécie de highway pontuada por poços, agraciada por oásis e povoada por gente que oferece o que não tem. Caravanas de camelos levavam sal e sonhos.
Banho só de bacia, banheiro era uma pá. De noite, o céu se aproxima, aconchega. O céu que nos protege com suas estrelas cadentes e satélites artificiais. Entendi perfeitamente o título que Paul Bowles deu ao seu romance. The Sheltering Sky. Quem precisa de abrigo quando tem sobre si todo o firmamento? Última barraca desmontada, cadê o búzio no pescoço? Procuro, mas nada. No dia seguinte dormiríamos na cidade. O lugar dele era o bush.
De volta a Agadez. A Land Rover estaciona na frente do hotel, que como tudo ali é de barro com arabescos finamente esculpidos. Só para lembra que nestas terras sem chuva o ar é tão seco a ponto de fazer a vida bem mais perene que o barro. Novamente à mercê daquela ruidosa multidão, empurrando um punhado de coisas de couro de camelo bem cerzido, mas mal-curtido. Rej não estava lá.
“Madam, madam”, um rapaz ejeta-se da multidão bem na minha frente. “Sou Adam, irmão de Rej. Ele não pode vir, mas pediu para te chamar”, disse ele num inglês bem melhor do que o do suposto irmão. Adam não se parecia em nada com Rej. Estava vestido de calça jeans e camiseta e usava um boné na cabeça. “Somos irmãos do mesmo pai”, adiantou-se em explicar. “Minha mãe é haussá.” Então ele era meio tuaregue e meio haussá, o que explicava suas feições mais parecidas com a gente do sul do país, que faz fronteira ali com a Nigéria. Mas nada explicava aquele boné e aquele inglês razoável. Ou ainda o fato de o garoto se auto nomear Adam. Ele tinha uma quedinha pelo “Império Americano”.
Minha mãe diria para eu não aceitar aquele convite, mas fui. Segui Adam pelas ruelas de Agadez até que paramos na loja mais moderna que podia existir por ali. Vendia pranchas de surfe para areia. Na língua tuaregue, erg significa, literalmente, mar de dunas. Mas eu não vi nenhum tuaregue nem ninguém pegando onda.
Esperamos alguns minutos na loja até que Rej apareceu, acompanhado de um amigo, o Mohamed, e com um saquinho plástico na mão. Fomos andando os quatro mais alguns quarteirões até parar na entrada de um páteo. No fundo estava o quarto de Rej, que chamava menos atenção pelo tamanho – uns dois por dois – do que pelo despojamento. Não tinha móveis, nada. Um colchão bem fino no chão era a cama. Ao invés do armário, uma prateleira de alvenaria revelava seus pertences. Uma muda de roupas, uma caixa e material para fazer bijuterias. Só.
Ao entrarmos Rej e Adam apresentaram a irmã, Zara, que passou todo o tempo calada e, por mais que eu tentasse puxar assunto, ela ria timidamente e permanecia olhando para o fio onde encaixava, uma a uma, pequenas miçangas que formariam a pulseira que me daria de presente. Zara parecia bastante com Rej e também pintava os olhos de kajal negro e fazia pequenas bolinhas no rosto, à moda dos wodaabes. Os homens desta etnia africana costumam se maquiar mais do que as mulheres. Maquiagem e delicadeza são símbolos de beleza masculina.
Rej esquentou a água para fazer o chá e, em seguida, abriu com orgulho o saquinho que carregava na mão. Era um pacote de biscoito. “Você vem para o Gereewol?”, perguntou, meio com gestos. Adam traduziu. Gereewol é a maior festa wodaabe, quando os homens maquiadíssimos dançam, cantam e fazem curiosas caretas. As mulheres, vestidas modestamente e sem maquiagem, assistem à exibição e podem escolher o homem que considerarem mais bonito. Às vezes dá em casamento, noutras é apenas one night standing mesmo. Moderno, polígamo, simples assim. Quando vi, Rej estava dando uma palhinha da dança do Gereewol. Todos riram, até Zara.
Depois, meu amigo fez um ar solene e disse que queria mostrar uma coisa. Alcançou a prateleira de alvenaria e pegou algo de dentro da caixa. Eram cartas. De gente dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Austrália. Cartas de gente que passou por ali, como eu. O correio faz aquele povo se sentir parte do mundo, num país que quase não existe. Em todas as vilas pelas quais passei, pessoas com quem trocava cinco palavras escreviam o endereço num pedaço de papel e pediam para que eu mandasse notícias. Como Rej não tinha endereço fixo – parte do ano passava no bush ajudando o pai a cuidar das cabras – passou as coordenadas da biblioteca da cidade e disse que eles guardavam as cartas para ele. O tempo passou, São Paulo me engoliu novamente, Agadez virou memória enterrada com tantas outras. Nunca escrevi para Rej.
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